Sobre escravidão, consumo, hipermodernidade…

Na última reunião, debatemos o filme Da servidão moderna (2009), dos autores Jean-François Brient e Victor León Fuentes. O documentário, de 52 minutos, expõe apocalipticamente a situação do escravo moderno, do homem ocidental, que está preso à um sistema totalitário de consumo.

A servidão moderna é uma escravidão voluntária, consentida pela multidão de escravos que se arrastam pela face da terra. Eles mesmos compram as mercadorias que os escravizam cada vez mais. Eles mesmos procuram um trabalho cada vez mais alienante que lhes é dado, se demonstram estar suficientemente domados. Eles mesmos escolhem os mestres a quem deverão servir. Para que esta tragédia absurda possa ter lugar, foi necessário tirar desta classe a consciência de sua exploração e de sua alienação. Aí está a estranha modernidade da nossa época. Contrariamente aos escravos da antiguidade, aos servos da Idade média e aos operários das primeiras revoluções industriais, estamos hoje em dia frente a uma classe totalmente escravizada, só que não sabe, ou melhor, não quer saber. Eles ignoram o que deveria ser a única e legítima reação dos explorados. Aceitam sem discutir a vida lamentável que se planejou para eles. A renúncia e a resignação são a fonte de sua desgraça.

O mercantilismo toma conta da nossa cultura com o ascender da modernidade. As pessoas passam a viver de forma alienada, seguindo rotinas massificadas, onde todos são de alguma maneira explorados. A busca pelo trabalho, a alimentação, as formas de comunicação e o entretenimento evidenciam essa nova condição do homem. Diferente dos escravos do Antigo Egito, os ocidentais não querem sair de seus grilhões, preferem continuar na inércia da mediocridade.

O pensamento exposto no filme é bastante similar ao do filósofo e estudioso da hipermodernidade, Gilles Lipovetsky. Junto com Jean Serroy, Lipovetsky, na obra A cultura-mundo (2011), trata dessa questão enfaticamente. Para os autores, chegamos no ápice do hiper, pois tudo é exacerbado, em excesso. Eles destacam que isso ocorreu quando a cultura e a economia se uniram e passaram a andar juntos. O mundo das marcas e das celebridades se estendeu aos outros mundos. Agora são as marcas que buscam incutir valores nos seres.

Tanto no filme, quanto no livro A cultura-mundo, a crítica nos mostra que só há uma solução: a educação. Porém, que educação é essa? Essa pergunta nos chamou a atenção e guiou nosso debate. Lipovetsky e Serroy falam em educação para organizar e hierarquizar o excesso de informação.

Brient e Fuentes afirmam que é preciso ensinar às novas gerações a libertação. Nenhum dos contextos é claro. Existem diversas formas de transmissão do conhecimento, aliás, existem muitos conhecimentos. Não chegamos a uma conclusão, uma vez que o próprio questionamento é complexo e, talvez, mal formulado. A melhor forma de encarar esse problema é buscando resolver quadros menores e próximos de nós.

Entrevista com Gilles Lipovetsky e Jean Serroy:

Entrevista a Gilles Lipovetsky y Jean Serroy (V.O.S.E.) from Pantalla Global // CCCB on Vimeo.

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GEISC no Intercom 2012

O GEISC marcou presença no XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom 2012, realizado entre os dias 3 e 7 de setembro na Universidade de Fortaleza (UNIFOR).

Conheça os trabalhos apresentados pelos colegas do GEISC no Intercom 2012:

Lirian Sifuentes –  GP Teorias da Comunicação

Título: Incursões pelos estudos de recepção: retomadas históricas e perspectivas futuras

Resumo: Os estudos de recepção contam com um percurso histórico de mais de três décadas, sendo possível localizar seu surgimento teórico na criação do modelo Encoding/Decoding, por Stuart Hall, em 1974, e empírico na publicação de “The Nationwide Audience”, por David Morley, em 1980. Hoje, acompanhando as discussões pertinentes à contemporaneidade, o campo coloca novas questões para serem pensadas pelos investigadores da recepção. O objetivo desse texto é situar essa trajetória, destacando as discussões relativas aos distintos momentos, e as perspectivas que se colocam para o presente e o futuro das pesquisas empíricas sobre as audiências.

Artigo completohttp://www.intercom.org.br/sis/2012/resumos/R7-1418-1.pdf

Eduardo Ritter – GP História do Jornalismo

Título: Jornalismo Gonzo: medo e delírio no New Journalism

Resumo: Quando o jornalista norte-americano Hunter S. Thompson escreveu em 1971 uma série de artigos para a Revista Rolling Stone sobre a busca do sonho americano em Las Vegas, ele criava, em meio ao New Journalism, um tipo de jornalismo que ficou conhecido como jornalismo gonzo. Essa prática jornalística, que resultou na publicação do livro Medo e delírio em Las Vegas, ficou conhecida no mundo ocidental. Entretanto, há poucos estudos em língua portuguesa sobre esse tipo de jornalismo. Dessa forma, o presente artigo traz um resgate sobre a biografia de Hunter S. Thompson e de seu jornalismo gonzo. Afinal, a vida e a obra do autor, que jogou drogas, ironia, bebidas e humor no campo jornalístico e político, estão inseparáveis.

Artigo completo: http://www.intercom.org.br/sis/2012/resumos/R7-0362-1.pdf

Daniela Grimberg – GP Comunicação e Desenvolvimento Regional e Local

Título: Mídia e desenvolvimento: a ideologia do progresso tecnológico no encarte Mais Campo, de Zero Hora.

Resumo: O presente artigo trata-se de uma análise da ideologia nas formas simbólicas empregadas pelo suplemento Mais Campo, do jornal Zero Hora, no que toca à informação voltada à temática rural. A relação entre comunicação e desenvolvimento passou a ser explorada a partir da década de 1950, partindo-se do princípio de que a comunicação é peça-chave para impulsionar a adoção de certas práticas pelas comunidades agrárias, afetando diretamente economia e política regionais. Sob essa perspectiva, a imprensa, seja ela local ou não, está submetida ao modelo de desenvolvimento no qual está inserida, estando a grande mídia gaúcha diretamente ligada aos moldes do agronegócio praticado no estado. Com base na hermenêutica de profundidade e nas concepções de ideologia para Thompson (1995), a análise foi feita a partir de três matérias sobre a utilização de tecnologia pelo produtor rural.

Artigo completo: http://www.intercom.org.br/sis/2012/resumos/R7-2218-1.pdf

Mais informações sobre o Intercom 2012 em http://intercom.unifor.br/

Experiência docente

A segunda reunião do grupo neste semestre, no dia 28 de agosto, foi fértil em discussões. Iniciando a sessão, discutimos o projeto de pesquisa elaborado pelo colega Mateus Vilela para a seleção de doutorado. Elementos como tema, objetivo e possíveis orientadores foram discutidas entre os colegas. Logo após, o tópico da reunião referiu-se aos textos que estão sendo produzidos pelos integrantes do grupo para o Dossiê GEISC – oportunamente falaremos mais a respeito. Sugestões sobre o andamento dos artigos compuseram as discussões.

Passamos, então, para o assunto que focarei neste post: experiências docentes. Eu e o colega Eduardo Ritter compartilhamos um pouco de nossas vivências como professores. Em ambos os casos, o tempo de docência no ensino superior é curto: eu iniciei na atividade em fevereiro de 2011, na Universitária Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó), e o Eduardo começou em agosto do mesmo ano como professor substituto da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), ambos no curso de Jornalismo. Cada semestre em sala de aula, no entanto, é rico em experiências e nos faz ver de outra perspectiva a carreira acadêmica.

As temáticas abordadas no encontro foram desde as seleções/concursos docentes, passando pela “escolha” das disciplinas a serem ministradas por nós, até o dia a dia em sala de aula, destacando as maiores dificuldades encontradas no cotidiano da universidade.

Elenco a seguir alguns dos elementos que julgo mais pertinentes para pensar a carreira docente. Primeiro, é preciso destacar que a graduação, o mestrado ou mesmo o doutorado não nos preparam para dar aula. Esse já é um ponto pacífico quando se pensa em conhecimento de didática. Buscando amenizar essa deficiência, a maior parte dos cursos de mestrado e doutorado oferece alguma disciplina complementar na área de Metodologia do Ensino Superior. Considero esse tipo de disciplina fundamental, mas é pouco. Talvez especializações na área possam ser uma saída para nos dar mais confiança para atuarmos como professor. Mas, além da questão de despreparo didático, penso que é também central ter em mente que dificilmente lecionaremos sobre o tema de nossa pesquisa. Para suprir esse aspecto, penso que só há uma saída: estudar.

Um segundo ponto, relacionado ao primeiro, é que muitos de nós decidimos cursar o doutorado sem nunca ter tido experiência em sala de aula. Quando nos deparamos, in loco, com a carreira que escolhemos (a de professor universitário), podemos descobrir que não queremos/ não “temos jeito” para isso. Já tive conversas com amigas em início de carreira docente em que nos questionávamos: “é isso que quero fazer para o resto da vida?”. Conhecemos a vida de pesquisador, mas só imaginamos como é ser professor. Nessas conversas, ninguém tem certeza absoluta sobre ser professor. Mas também não sei se alguém tem sobre qualquer carreira, ou sobre qualquer coisa na vida…

Concluindo, a experiência docente é inquietante. Obriga-nos a estar sempre estudando, ampliando interesses, coloca-nos em frente a turmas (de cinco ou de 50, já tive as duas experiências) com personalidades tão diversas. Tudo isso é um desafio permanente. Enfim, acho que a vida docente não é para quem não quer desafios. Para os outros: boa sorte, e bons alunos, para nós!

Texto de Lírian Sifuentes